28/01 2016 A África, a moto e os arquitetos

Há pouco acabei de ler um livro pouco habitual para mim, pelo menos: „Oyibo. 2 oameni, 1 motocicletă, 14 luni în Africa” (Oyibo. 2 pessoas, 1 moto, 14 meses na África) de Ana Hogaș e Ionuț Florea, da casa editora Humanitas. Quando se trata de lazer, não costumo aventurar-me longe da beletrística, mas ao ver África e moto em conjunto, a coragem não tardou em tornar-se presente. Os autores são dois jovens arquitetos que, em 2011, decidiram deixar atrás tudo que os mantinha presos, subir a moto e ir-se embora, durante 14 meses, até aos mais afastados cantos do continente africano.
Aconteceu que vi o livro numa livraria que, hoje em dia, já não lá está. Confesso que hesitei antes de o comprar, mas pensei que até para o capítulo dedicado a Moçambique valia a pena fazer o que me apetecia no final do ano. Como poucos são os jornais de viagem que falam (também) das ex-colónias portuguesa, muito pelo menos duma perspetiva conterrânea, o gesto até parece natural.
A leitura não começou em força. O início foi tímido, com o capítulo dedicado ao país que me fez comprar o livro para depois dar-me conta que já tinha chegado ao seguinte, e ao seguinte, e ao seguinte capítulo. Fiquei a saber que:
1) os moçambicanos são os mais pacíficos, tímidos e acolhedores africanos, prontos em qualquer momento para estender a mão. O episódio em que os protagonistas são António e Francisca da casa com paredes de paus, em que acolham os autores do volume, faz transparecer a modéstia e o facto de que, uma vez ao limite da subsistência não há nada a perder se estender a mão a uns estrangeiros, mas muito pelo contrário!
2) o registo culinário conhece influências da gastronomia portuguesa, notavelmente no que diz respeito a doçaria, e as pastelarias não tardam em serem mencionadas como lugares onde o pão português, a massa com creme de ovos e leite são espalhados pelo estabelecimento, que aliás é muito pobre.
3) a história recente deixou marcas profundas na paisagem urbana. Descoberto em 1498 pelos portugueses liderados por Vasco da Gama, Moçambique subscreve-se à soberania da Coroa portuguesa durante cinco séculos, para depois ganhar a própria independência em 1975, quando acabou também a Guerra do Ultramar, os portugueses abandonaram o território, e FRELIMO, a Frente de Libertação de Moçambique foi consolidada com o apoio de estados comunistas como URSS e Cuba. Interessante foi depois o delírio político, que se concretizou numa guerra civil de 16 anos, entre a Frente e RENAMO, o grupo de resistência, que se reflete nos prédios decrépitos, as lojas em falência, as ruas vazias e os blocos que perderam o caráter sóbrio por causa dos frescos multicolores que os cobrem.

Recomendo a aventura dos dois arquitetos e confio que vai satisfazer as exigências de qualquer leitor, apaixonado ou amador, não só pelos pormenores históricos, geográficos e socioculturais que enchem cada página, mas também pelas realidades físicas, presentes nas fotografias que completam a narrativa – é pena que (com poucas excepções) não seja explícito o lugar onde foram tiradas.

Caso os autores encontrem este artigo, por acaso, peço-lhes que nos enviem um e-mail – gostaríamos de saber mais. Prometo retribuição satisfatória!