25/09 2017 Não desistam, escutem!

Handsome Latino Man Listening to Music

Um dos exercícios mais difíceis para qualquer pessoa que toma a decisão de aprender a língua portuguesa é o exercício de escuta. Sinceramente, é um exercício difícil no caso de qualquer língua estrangeira. No entanto, como qualquer atividade com nível de dificuldade bastante elevado, traz os maiores benefícios a longo prazo.

 

Pessoalmente, achei sempre difícil passar o tempo a ouvir um programa de rádio, um podcast, ou até ver um programa TV numa língua estrangeira, no início, porque não conseguia distinguir as palavras. Basicamente, tinha sempre a impressão de estar a ouvir uma cadeia de sons sem fim – fazia depois um esforço cognitivo fantástico e esperava vir a identificar  pelo menos uma palavra desconhecida mas, na maioria dos casos, ao chegar ao final da gravação, dava-me conta que o único objetivo alcançado tinha sido a diminuição considerável dos recursos de energia.

 

Felizmente ou infelizmente, de acordo com o caráter da situação e a maneira de encarar as coisas, tenho sofrido, desde pequena, de um síndrome relativamente comum, fácil de diagnosticar, que se chama “excesso de zelo”. Manifesta-se como uma teimosia extrema causada pelo desejo de levar ao cabo, inclusive e sobretudo, os exercícios mais inúteis em que alguém possa pensar. Por isso, ao insistir na ideia de que  se ouvir algo  durante suficiente tempo, é certo que chegarei a descodificar pelo menos o tópico da discussão, consegui e assim foi!

 

Atenção: isto  não quer dizer que se começarmos a ouvir gravações em japonês amanhã vamos acordar fluentes em japonês! Nem pensar! Isto  sim quer dizer que, um exercício regular de escuta, que acompanha a leitura de textos e a compreensão das regras de funcionamento da língua-alvo (o eufemismo utilizado destina-se àqueles que têm dores de estômago ao ouvirem a palavra gramática), ajuda-nos a ter um progresso mais rápido e confere-nos flexibilidade nos pensamentos.

 

Eis alguns motivos neste sentido:
1. Chegamos a identificar as palavras numa cadeia sonora – a parte mais difícil, sobretudo quando estamos no início do caminho e a capacidade de concentração é bastante diminuta. Isto não quer dizer que nos devamos  afastar dos materiais autênticos, ou seja filmes, programas de TV , podcasts, simplesmente porque apresentam um nível de dificuldade bastante elevado. Pelo contrário, teremos mais satisfação ao percebermos o sentido das frases autênticas. Um pouco de paciência, diria eu!

 

2. Conseguimos ver a língua-alvo num dado contexto – vamos pressupor que optamos por  aprender certas palavras que pertencem ao campo lexical de jardinagem. Um programa ou até um podcast sobre jardinagem oferece-me a possibilidade de seguir o vocabulário de interesse em ação, porque está a ser utilizado num contexto adequado, natural, sem artificialidade. Mais do que isso, consigo antecipar facilmente os sentidos das palavras, dado que é certo que num programa sobre como organizar um jardim no terraço terei basicamente o vocabulário designado e não vão aparecer, de repente, elementos de física quântica.

 

3. As situações pragmáticas tornam a vida mais fácil – o contexto, sobretudo no caso dos programas de TV, desempenha um papel importantíssimo, ou seja, ajuda com a simplificação do processo de descodificação da mensagem oral. A interação entre os falantes, os gestos, a mímica, o tom – todos esses elementos desempenham um papel importante que me ajuda identificar o tema de discussão, sem ficar parada na ideia de ser preciso compreender cada palavra.

 

4. Enriquecemos o vocabulário – aconteceu-me mil vezes encontrar uma palavra nova, cujo sentido consegui identificar a partir do contexto ao basear-me no vocabulário que já dominava e que funcionou como um marco miliário. As coisas tornam-se ainda mais agradáveis se aquela palavra for repetida não apenas uma vez, mas várias vezes na mesma gravação  – desta forma, o contexto muda, portanto tenho a possibilidade de ver uma palavra nova em contextos diferentes e verificar o sentido, portanto avaliar o meu raciocínio. Feedback imediato, gratificação instantânea.

 

5. Reativamos os elementos de vocabulário conhecidos – um aspeto fortemente ligado ao ponto anterior, porque através da ativação do vocabulário prévio, posso descobrir, através da inferência, o sentido das palavras novas. Isso traz benefícios em várias frentes: primeiro, consigo evitar a utilização do dicionário a cada passo e segundo, é uma maneira de reforçar os conhecimentos prévios. Além disso, o nível de auto-estima cresce a ritmo galopante.

 

6. Temos controlo e liberdade ao mesmo tempo – porque a tecnologia me permite, tenho a possibilidade de andar em qualquer sentido, sem contra-ordenação, ou seja, posso ouvir a gravação o número de vezes que quiser, posso escolher ouvir uma única sequência várias vezes, posso ignorar a parte que me aborrece, posso fazer alterações na velocidade etc. Claro, se não se tratar de uma transmissão ao vivo. A gestão dos limites pertence-me por completo, na medida em que estou disposta a fazer um esforço mínimo. Mais do que  que isso, gozo da liberdade de escolher gravações sobre tópicos que me interessam, o que torna esta atividade ainda mais agradável.

 

A propósito disso, ouvir é um exercício que acontece em duas etapas: ao ouvir pela primeira vez (top-down) identifico o(s) tema(s) de discussão e familiarizo-me com o ritmo. Ao ouvir pela segunda vez (bottom-up) posso começar a pensar em identificar os pormenores, interpretar o conteúdo e assim por diante. Portanto, não tenham receio de  carregarem no botão play várias vezes.

 

É óbvio que as ideias reveladas acima não constituem uma lista exaustiva dos benefícios do exercício de escuta. Independentemente do tipo de material escolhido para fazer o exercício, seja este concebido com alvo didático, seja ele autêntico, é importante não desistirmos imediatamente e utilizarmos todos os recursos que temos para percebermos do que é que se trata. Afinal  de contas, antes de falar é importante escutar e todos nós sabemos que isso pode ser difícil até na nossa língua materna.

 

É por todos estes motivos que recomendo fortemente PortCast, o melhor amigo português dos fãs de podcasts, que me tem acompanhado ao longo de muitas aulas e sobre qual poderão ler um artigo aqui.

 

Até breve e caso tenham sugestões de podcasts, não hesitem em deixá-las num comentário abaixo.