09/07 2021 Cluj-Napoca – uma cidade de contrastes

Cidade cheia de universitários, cidade jovem, cidade cheia de vida. Na cidade universitária por excelência da Roménia, o ambiente estudantil é algo que não passa despercebido e que atrai centenas de pessoas anualmente. De todos os cantos do mundo vêm jovens para fazer Erasmus em Cluj-Napoca. Trazem consigo as heranças das suas culturas, os hábitos e comportamentos que os caraterizam de forma tão única e especial, e todas as novas tendências e costumes se cruzam nas ruas de Cluj-Napoca. Uma mistura de seis continentes que faz a cidade cantar com diversidade e dançar com toda a multiplicidade da geração jovem. Saídas à noite disponíveis todos os dias da semana, do anoitecer até ao sol raiar, numa animação que está quase ao nível das grandes noites europeias.

Mas ainda assim, a noite espetacular e a atmosfera adolescente não são o ponto mais alto de Cluj-Napoca. São talvez o mais atrativo, o mais famoso em termos internacionais, mas está longe de ser a melhor face da zona urbana.

Cluj-Napoca é uma cidade de contrastes: no seio do seu modernismo em expansão ainda existem espaços que remetem para a antiguidade e que, se virmos com atenção, trazem as rimas que faltam para compor uma ode simplesmente perfeita na sua antítese. É algo sublime ver todo o modernismo unido à antiguidade que está presente nos elementos da sociedade, o passear pelas ruas e sentir a influência do renascimento, do gótico, do ecletismo, do barroco… Movimentos que surgiram ao longo dos tempos e que foram caindo como as folhas caem das árvores no outono, mas que, de uma maneira ou de outra, em Cluj-Napoca, se mantiveram quase intactos.

A terceira maior cidade da Roménia – a rondar os 320 000 habitantes – e com a bênção de ser perto da Hungria, Eslováquia e Ucrânia (e assimilar certas influências destes países), é também um foco cultural e comercial com um exponencial desenvolvimento na área da ciência e tecnologia.

Cores, texturas, perfumes – uma palete de sensações naturais

E claro, os verdes não podiam faltar. O foco natural que mais encanta nesta díspar cidade é o Jardim Botânico Alexandru Borza. E se pensarmos bem, depois da correria da semana, preenchida com trabalho e com o quotidiano stressado dos dias que correm, um jardim – e especialmente este que é, na verdade, um mundo inteiro – é o que mais apetece à fatigada alma. Este universo esverdeado está plantado um bocadinho a sul do centro da cidade, o que ajuda a fugir à poluição e ao caos citadino.

Fundado por Alexandru Borza em 1872, esta superfície tem 14 hectares e as mais belas espécies de plantas oriundas de todos os ângulos do planeta. Mais de 10 000! Túlipas, jacintos, estrelícias, açafrões, narcisos, margaridas, mais de 300 espécies de rosas… folhas acetinadas, pétalas perfumadas, texturas suaves que lisonjeiam a pele, cores de louvar aos céus – um autêntico paraíso floral.

O jardim tem um belíssimo Museu Botânico, e aqui adicionando a módica quantia de mais de 635 000 plantas, e ainda seis estufas (que parecem verdadeiras selvas) que dão uma mãozinha às plantas tropicais para que vinguem na vida. Um espaço natural para respirar ar carregadinho de oxigénio e sentir a paz que as plantas nos transmitem. É um autêntico oásis de bem estar: sentimo-nos rodeados de flores bonitas e de uma natureza pura e angelical, entramos em contacto com plantas que nunca antes vimos, sentimos a sua aroma e textura, admiramos a sua cor. Flores azul-turquesa, amarelo creme, violeta, magenta ou púrpura, todas criam um espectro de cores que vai quase além do arco-íris e nos faz alterar os sentidos e emoções.

Rechonchudas hortênsias lilases, pequenas e grandes palmeiras, tímidas frutas a renascer depois do frio do inverno, famílias inteiras de tartarugas a cirandar à beira da água, lagos com patos que quase parecem de veludo. Zonas de cactos que impõem respeito, nenúfares com lótus desabrochadas à tona da água a trazer a espiritualidade que faltava a este espaço lírico natural, no centro de uma cidade tão realisticamente atarefada.

A floresta que até os males espanta

Hoia Baciu, a floresta que fica a 9 quilómetros do ponto central de Cluj-Napoca, a oeste do centro e da azáfama, é um mundo mágico que deve ser contemplado. Queremos floresta mais insólita e cativante que esta? Impossível.

Ouve-se que está assombrada, que é assustadora, creepy, horripilante. Que é uma das florestas mais obscuras do mundo. Alguns até lhe chamam o Triângulo das Bermudas da Roménia. Soube, através de pessoas de Cluj-Napoca, que as lendas são mais que muitas: desde o desaparecimento de pessoas, de encontros com alienígenas, presenças de elementos sobrenaturais, só nunca ouvi nada sobre a existência das fadas.

Mas a verdade é que eu vejo o contrário. Não vejo nada assustador nem obscuro. Vejo um espaço original e diferente que a maioria das vezes causa aos outros rejeição ou pavor, mas a mim não. Vejo um espaço único e profundo, com todos os segredos da existência guardados naquelas árvores tortas, com memórias acumuladas de momentos tristes e felizes dentro dos seus troncos que quase parecem maleáveis, com nevoeiro por entre as copas que nos faz questionar se Dom Sebastião irá aparecer de rompante.

A floresta tem uma clareira e é nela que paira todo o suspense no que toca a situações paranormais e inexplicáveis pela ciência. É um espaço redondo, quase perfeitamente circular, sem nenhuma vegetação no meio. É especial porque paira no ar algo que se sente no peito, quando pomos os pés na clareira algo acontece dentro de nós, uma sensação bonita desperta nos nossos corações, como se estivéssemos finalmente conectados a algo superior a nós. Esta floresta é sem dúvida excecionalmente invulgar e é isso que a torna tão maravilhosa.

E a cereja – o vegetal, neste caso – no topo do bolo desta cidade coberta de natureza, é o restaurante Samsara. Mesmo ao lado do Parque Central, o lugar ideal para visitar depois de um dia a deambular por Cluj-Napoca tal como deambulava Cesário Verde pelas ruas de Lisboa. Um espaço cheio de personalidade que combina lindamente com a cidade que o acolhe. Apesar de ser só para os amantes de verduras, é um local com pequeno terraço onde o espírito jovem e dinâmico se sente bastante, um ambiente agradável que é a melhor forma de acabar o dia.

Se quisermos ir um pouco mais além, e ver a big picture sobre esta cidade maravilha, temos pelo menos seis locais onde é possível admirar a zona urbana (quase) por completo. As vistas panorâmicas são momentos onde expandimos ao mesmo tempo que expande a paisagem, e tornamo-nos tão grandes que conseguimos incluir tudo o que vemos nos nossos corações.

As vistas panorâmicas mais conhecidas são o topo da torre da Igreja de São Miguel (Biserica Sfântul Mihail), exactamente no centro da cidade; o topo da torre de água no Jardim Botânico; a Cidadela (Cidadela das nuvens, como é conhecida), Dealul Feleac; a meio da rua Uliului; e no final da floresta Hoia Baciu quando saímos em direcção ao centro da cidade. Todos estes espaços têm um sabor diferente, uma vista inigualável sobre a vida em Cluj-Napoca, uma perspectiva que mostra outra óptica sobre a paisagem citadina.

No verão vemos todos os campos verdes e sentimos o cheiro a flores no ar, a paisagem passa a ser um autêntico quadro de William Baker, puro naturalismo em todo o seu esplendor. Ou no inverno, onde as ruas e os prédios vistos ao longe estão cobertos de neve. Um contraste com as luzes dos prédios que é tal e qual como um postal de natal que se quer enviar à família no mês de dezembro, a juntar-se uma calma que reina e flutua no céu infinito que abraça Cluj-Napoca.

Cluj-Napoca é uma cidade de contrastes: faz-nos rir de alegria quando estamos com ela, faz-nos chorar com saudade quando partimos, desperta em nós tranquilidade e dinamismo de forma simultânea. É uma poesia que murmura delírios de amor aos nossos ouvidos, deixando-nos embriagados de emoção, mas sempre a chorar por mais.

Texto e fotografias de Mariana Colombo.

Sobre a Mariana:

Desde que me lembro que sou apaixonada pela escrita e pela comunicação. Quando terminei o meu curso de Ciências da Comunicação, em Lisboa, soube que o meu futuro iria ser como escritora. E como tenho um fascínio pelo desconhecido e pela descoberta, viajo sempre que posso, juntando a escrita às minhas viagens. Foi numa viagem à Roménia onde me apaixonei pelo país, pelas pessoas e pela tradição. E resolvi ficar.

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